O Brasil sem edições

[caption id="attachment_761" align="aligncenter" width="300" caption="As cores da natureza"]As cores da natureza[/caption]

[caption id="attachment_760" align="aligncenter" width="225" caption="Criança se lambuza com açaí"]Criança se lambuza com açaí[/caption]

[caption id="attachment_758" align="aligncenter" width="225" caption="violência"]violência[/caption]

[caption id="attachment_757" align="aligncenter" width="300" caption="descontrole"]descontrole[/caption]







Amigos gostaria de compartilhar essa matéria que fala da minha travessia do Brasil em 2007, estou buscando inspiração nessa travessia para cruzar os EUA,mas queria relembrar um pouco do que vivi durante os 100 dias nas estradas brasileiras.


Cemdias percorrendo o desconhecido brasileiro do Oiapoque ao Chuí, o ultramaratonista
Carlos Dias, revela o estado de alerta em que se encontra o país.


O sol forte do Sertão e o vento gelado que corta o rosto no Sul, o cheiro suave da mata verde e o arder nos olhos com a fumaça das queimadas ou ainda a generosidade do sertanejo que sofre com a seca e a fome, são contrastes revelados ao longo de todo território brasileiro. Terra farta que oculta suas tristezas em lugares esquecidos pela visibilidade.

Paradoxos que o ultramaratonista Carlos Dias viu a cada passada enquanto percorria 9 mil quilômetros que separam o Oiapoque, no Amapá, ao Chuí, no Rio Grande do Sul, distância alcançada entre os dias 27 de maio e 3 de setembro, do ano de 2007.

Formado em administração e especializado na área de treinamento de pessoas, o atleta que começou a correr para competições aos 15 anos de idade, encarou cem dias de ‘pé na estrada’ com determinação, enfrentando o cansaço, as dores, os medos e a saudade. Tudo isso por um sonho: conhecer o Brasil sem máscaras ou edições. “Meu desafio era sentir na pele a problemática do povo brasileiro e fazer isso da maneira que todos achavam impossível: correndo” – declara Dias.

Para isso, sua trajetória foi minuciosamente traçada pelos locais mais afastados, correndo pelo interior dos Estados de Amapá, Pará, Tocantins, Bahia, Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e, por fim, Rio Grande do Sul.

Por três anos se preparou e planejou cada detalhe desta aventura, pesquisando a história das principais cidades que iria percorrer, levantando possíveis patrocinadores e apoiadores. “Entrei em contato com empresas, lojas, prefeituras, departamentos de polícia, mas muitos me chamaram de louco e não me deram crédito. Quando consegui o primeiro patrocínio foi uma vitória” – disse Dias.

Contudo, boa parte da viagem, Dias fez sem escolta, dependendo do auxílio de moradores. “Por vezes, dormi sozinho em uma rede na beira da estrada ou mesmo nas casas dos nativos. Isso não somente por falta de apoio institucional local, mas por deficiência na infra-estrutura de algumas cidades que sofrem com a falta de saneamento básico, transporte, alimentação, moradia e segurança” - revela.

Brasil sem cores

Foram cerca de 500 cidades com histórias e realidades diversas mostrando um Brasil de paisagens muitas vezes sem cores.

Entre um acidente e outro que presenciava durante as corridas, ele lembra que na região do Pará viu muitas pessoas doentes à espera do barco de uma ONG estrangeira, que faz atendimento médico em algumas regiões ribeirinhas. “Não fosse o barco, muitos morreriam sem atendimento, pois falta transporte para deslocá-los aos centros das cidades” – ressalta.

Nessa região, Dias também se chocou com a exploração das famílias que dependem do trabalho com a castanha. “Quando alguém compra castanha-do-pará não imagina o quanto aquele saquinho cheio custou. Famílias inteiras se sacrificam para colher e preparar a semente e, enquanto recebem o mínimo, aqueles que as vendem para exportação, recebem o triplo” – alerta.

Segundo ele, a população desses locais, onde impera a exploração, também sofre com a forte marca da violência. Em seu diário de bordo, Dias revelou essa preocupação ao escrever: “Estou enfrentando uma região que tem muitos assaltos e mortes. Pistoleiros agem durante o dia roubando e matando as pessoas”. Apreensão justificada após ser assaltado ao fazer uma refeição em um bar à beira da estrada. “A sorte foi que deixei a mochila embaixo da mesa e eles não perceberam”.

Dias ainda desabafa ao relatar uma cena assustadora. “Vi vários fornos na beira da estrada queimando madeira e crianças de cinco ou seis anos trabalhando nesse verdadeiro inferno. A cada dia tentava me controlar para não chorar, mas isso era impossível diante de tanta injustiça”.

Mas não foi somente em áreas isoladas onde ele se impressionou. Não muito longe dos grandes centros, constatou que existem pessoas em situações precárias sem nenhum tipo de auxílio. Ele conta que, a alguns quilômetros de Florianópolis, passou por um rio cheirando esgoto onde pescava um casal com uma criança. Ao perguntar o porquê pescavam ali ouviu que aquela era a única forma de alimentação possível pra eles.

A esperança

Mas cenas felizes também marcaram sua aventura. Para o administrador que ousou correr pelo Brasil, nada supera a imagem do sorriso das crianças indígenas, o som dos pássaros, que sobrevoam a mata fechada, rasgada somente pelos rios cristalinos ou as dunas de areia branca que desembocam em piscinas transparentes. “As belezas desta terra e deste povo ofuscaram as coisas negativas que vi” – revela.

Além disso, a alegria do povo, mesmo diante de tantas dificuldades, também marcou muito essa aventura e o motivava a cada cidade. “Fui muito bem recebido na maioria dos locais que passei, mesmo a discriminação racial que sofri, não foi superada pela recepção dos brasileiros” – diz Dias.

Em contrapartida, o atleta contribuiu ministrando palestras motivacionais em escolas, associações comunitárias e ONGs. “O cérebro é treinado nas dificuldades, pois é quando precisa desenvolver e criar soluções. Por isso é importante que o indivíduo esteja sempre em busca de novos conhecimentos para não se deixar cair na zona de conforto. Ele tem que se indignar! E a falta dessa inquietação que faz com que muitos permaneçam na situação de miséria, não só física, mas da alma” – destaca.

Seguindo aquilo que ele mesmo prega em suas palestras, o ultramatonista já faz planos para uma próxima aventura pelo país. Dessa vez seu percurso terá um cunho ambiental. Por enquanto, ele vai reunindo suas lembranças em um livro para que tudo o que presenciou sirva como alerta às autoridades e principalmente, àqueles que estão inertes

Fonte : Revista Neomondo