42 maratonas em 42 dias e 250 km em 7 dias nos Andes

42 Maratonas em 42 Dias. 250 Quilômetros em 7 Dias Nos Andes

                         Foto Zandy Mangold
Cada pessoa tem o direito de estabelecer seus limites, nos desafios que se propõe a cumprir. Já, outras pessoas, buscam desafios físicos que, aparentemente, seriam intransponíveis. Nesta categoria está o ultramaratonista Carlos Dias, considerado “superhumano” pelo Canal The History Channel e, dentre outras façanhas, detém dois impressionantes recordes listados no RankBrasil: “A Ultramaratona mais rápida pelos quatro desertos extremos” e “Corrida do Oiapoque ao Chuí em menor tempo”.

Carlos concedeu esta entrevista à body.mag logo após o seu retorno de mais uma prova de resistência: uma prova do Racing The Planet, em grandes altitudes. Nada menos que 250 km de prova, percorrendo trilhas no alto das montanhas do Equador. 

Na entrevista, Carlos conta sobre seus desafios físicos e psicológicos durante o percurso e fala sobre seus próximos planos.



body.mag : Carlos, como foi para você o desafio de correr uma prova de longa distância, e em altitude, depois da prova no Nepal, em 2011? Como superar a insegurança?



Carlos Dias: Correr em altitude, para o meu organismo, é um grande desafio. Quando você já viveu a experiência de ter corrido em altitude, como eu corri no Nepal, o ideal é ter estratégia mais conservadora, para conseguir captar como o nosso organismo irá reagir e, assim, tomar decisões diárias para obter sucesso na jornada de conseguir completar uma prova de 250 km. Eu senti a altitude desde o início, com enjoos, tontura e muita fraqueza nas pernas. Isso me fez diminuir o ritmo e trabalhar sempre atento às reações cardíacas e de força muscular. Trabalhei muito a parte mental, lembrando sempre de momentos de alegria e conquistas, para não deixar o mental entrar na zona de sabotagem, onde os questionamentos aparecem com maior força, fazendo muitas vezes o atleta desistir.



body.mag : É verdade que você correu o equivalente a 42 maratonas por 42 dias consecutivos na fase de preparação? Como sair ‘inteiro’ de uma preparação dessas?



Carlos Dias: Uma das minhas preparações foi correr um desafio, no início do ano de 2015, quando corri 42 maratonas em 42 dias. 90% de todo esse desafio foi realizado em esteira da Movement, 5% em asfalto ao nível do mar e 5 % na areia de praia. A temperatura média que trabalhei ficou em 28°C, meus batimentos cardíacos eram, em média, de 170 bpm, com uma velocidade média de 7 km por hora. O segredo para sair inteiro e mais fortalecido em relação à parte física, foi manter um ritmo tranquilo. Corri cada maratona, na média, em 5 horas e 30 minutos, sempre monitorado e com especialistas de fisioterapia. Ao término de cada maratona, realizei sessões de crioterapia, massagem e exercícios dentro da piscina.  Também, corri com tênis Skechers, com tecnologia que me permitiu conforto, proteção e flexibilidade, além de utilizar equipamentos Movement, que oferecem uma tecnologia de absorção de impacto, chamada SAC, a qual protegia as minhas articulações de lesões.



body.mag : Além de correr, praticava outras atividades físicas de condicionamento?



Carlos Dias: Sim, realizo um trabalho de exercícios com fisioterapeutas, onde trabalho força, equilíbrio e resistência. Além de correr, adoro dançar, o que trabalha muito a lateralidade, deixando sempre meu quadril e tornozelos fortalecidos e, uma vez por semana, realizo trabalho de alinhamento com quiropraxista, massagem e crioterapia, quando faço imersão em banheira de gelo para sanar qualquer tipo de inflamação.
  
“Sou um ser humano como qualquer outro, tenho meus medos e também meu momento de preguiça. A diferença é que me permito experimentar algo além do padrão”
Carlos Dias, Ultramaratonista.
  


body.mag : Durante a prova, houve algum momento em que você se questionou: “por que eu faço isso?”



Carlos Dias: Esse tipo de questionamento vai sempre aparecer na mente, em momentos de grandes desafios. Por isso, mantenho meu mental preparado para responder esses questionamentos de forma rápida e objetiva. Se você não tem um porquê para seguir em frente, certamente essa questão te fará desistir. Eu tenho muitos motivos fortes para nunca desistir de um objetivo: meu filho Vinícius, as crianças do GRAAC - que lutam para vencer o câncer -, e o meu próprio desejo de aprender a cada desafio.



body.mag : Qual a sensação de, após tanto esforço, alcançar a marca da chegada?



Carlos Dias: É uma sensação incrível de conquista. Uma emoção indescritível, um sentimento de alívio por todos os obstáculos superados. É algo único transpor aquilo que parece ser impossível e, depois, se ver ali, pisando na linha de chegada. Realmente é algo de gratidão eterna.



body.mag :  Ao mesmo tempo em que você se supera em desafios cada vez mais impressionantes, nós “mortais” às vezes ficamos com preguiça até de sair de carro para ir à academia. Onde está escondido esse seu ‘drive’ que não te deixa desanimar?



Carlos Dias: Sou um ser humano como qualquer outro, tenho meus medos e também meu momento de preguiça. A diferença é que me permito experimentar algo além do padrão, duas a três vezes ao ano. Tenho meus momentos de ficar de pernas para o ar, assistindo um filme com meu filho, ou simplesmente sozinho na montanha, fechado em meditar. Mas adoro estar com pessoas, dançar e correr em lugares diferentes. 

Não deixo minha vida ficar em piloto automático. Procuro conduzir cada momento com intensidade, plenitude e entusiasmo. Se aparece aquele dia que você não está com a energia que precisaria para fazer uma atividade, procuro ler um livro, escrever sobre minhas experiências. Se não exercito meu corpo, exercito minha mente. Mas o desânimo aparece também! Nesses momentos, aciono os meus porquês para não desistir, não deixar o desânimo, o “um dia que muitas coisas não dão certo”, serem protagonistas. Procuro, a todo momento, evitar ser conduzido pelo mau humor gerado pelo dia a dia, que atacam as pessoas a todo instante. Procuro olhar além desses momentos. Assim sigo sempre em frente. Sorrindo.



Imagem: Zandy Mangold


body.mag : Em que momento surgiu para você esta percepção de que deveria trabalhar sempre com estas metas de (enorme) superação física?

Carlos Dias: Isso é natural! Se estou vivo e quero aprender sobre a  minha essência e a essência do mundo, é preciso cavar fundo na experiência e se colocar desafios ousados que te forçam e acionem todos os seus sentidos de forma verdadeira.  Não tenho uma cronometragem de quando surgiu essa percepção, pois desde muito pequeno procurei metas ousadas, que mexiam comigo, e com as pessoas ao meu redor. Tenho paixão por desafios e amo viver minha vida. Mas sempre com o cuidado de passar para as pessoas que eu não quero ser o melhor do mundo e, sim, transmitir para o mundo o melhor do meu eu. Quero viver toda minha humanidade sem estereótipos, quero ser autêntico e espontâneo em cada ação que me proponho a fazer.



body.mag : Algum plano pra os próximos meses?



Carlos Dias: Para os próximos meses tenho algumas ações em feiras, palestras em empresas e já estou trabalhando em um convite que recebi na possibilidade de acompanhar, como atleta-guia de um atleta cego - o Vladmi Virgílio -, em uma prova 250 km no deserto do Atacama.
Fonte: Body.mag