Corrida: na alegria e na tristeza

Hoje compartilho com vocês o texto da minha amiga Andreza Taglietti, que acaba de se casar com a corrida. Felicidades minha amiga, muita luz na sua trilha.



Corrida: na alegria e na tristeza

Por Andreza Taglietti   


Eu disse sim. No impulso. No calor. Na paixão. No pós-carnaval. Quando não havia mais águas para fechar o verão. Sim, sim e sim. Eu disse sim às possibilidades. Eu disse sim à cumplicidade. À parceria. Às gargalhadas. Às borboletas no estômago às 7 da manhã. Sete da manhã num dia de domingo, meu caro Tim Maia.

Eu disse sim às roupas. Aos acessórios. Aos produtos de beleza. Revistas. Livros. Playlists. Aplicativos. Holofotes.  Eu disse sim a uma saia de olho grego. Pra espantar o mau olhado. Aviso. Dizer “sim” à vida muitas vezes pode atrair mau olhado, queridas leitoras.

Eu disse sim à disciplina quase militar, como diz doutor Dráuzio. Pena que o Wagner Moura e o Capitão Nascimento não vieram no pacote. Eu disse sim às pessoas. Você é louca. Sim, sou louca. Você é muito radical. Sim, sou muito radical. Você corre muito. Eu não consigo correr tudo isso. Sim, você consegue. Tem que gostar muito, né. Sim, tem que gostar muito.

Eu disse sim ao medo. Porque, sim, dá medo começar uma nova relação, não dá? Medo de não me adaptar à nova rotina. Medo de me machucar. Medo de não conseguir cumprir a minha parte do pacto. Medo de não ser capaz. Medo de não me dedicar o suficiente. Medo da partida. Medo da não-chegada.  

Eu disse não. Não às viagens nos feriados. Não a muitas baladas. Não aos amigos boêmios. Eu disse não à família. Não à minha deliciosa São Paulo noturna. Ao samba. Ao rock. Ao show do Ney Mato grosso. Ao Lenine. Ao meu querido time do Morumbi. Eu disse não ao vinho. Tadinho. Não, não e não.

Fiquei machucada. Fisicamente. Pé. Lombar. Ciático. Fibulares. E eu nem sabia que eles existiam. Devia ter denunciado essa violência toda. Lei Maria da Penha. Mas sou mulher de malandro. Voltei. Renovei meus votos. Voltei e tatuei. Pra machucar mais um pouco.

Corrida é casamento. Correr é dizer sim. Correr é dizer não. Sentir, ter prazer, suar, vibrar, entender, respeitar, observar, construir, se adaptar, ceder.  Não existe lua de mel eterna com a corrida. Rotina. Intimidade. Altos. Baixos. Cansaço. Estou de saco cheio. Não aguento mais. Frases que fazem parte. Do relacionamento. E da corrida. Ninguém é perfeito.

Corrida é casamento. Um casamento que me possibilitou visitar e acessar lugares internos que existem e eu não conhecia. Me reinventou. Me ensinou a praticar uma escuta generosa. Do meu corpo. Dos meus amigos parceiros de corrida. Do meu despertador. Do chão. Da natureza. Da minha trajetória. Do meu silêncio. Do meu barulho. Da minha força. Da minha respiração. Me mostrou o real significado de cumplicidade, realização, conquista, confiança. Em mim e nos outros. Testou meus limites.

O meu casamento com a corrida me deu direção e (mais) conexão com a vida. Só tenho a agradecer, agradecer e agradecer. Eu disse sim ao coração. Deu vontade de viver muito mais tempo nesse mundo maluco. Corrida é ter chão. Correr é poder olhar pra frente. Correr é liberdade. Liberdade de poder sonhar com o próximo passo. 

E você?   Qual é o seu próximo passo?